(Re)Viver.

E lá vai mais uma família feliz. Voltando pra casa depois de mais um fim de semana viajando. Voltavam de Araruama, cidade localizada na Região dos Lagos, Rio de Janeiro. Conversando tranquilamente, estrada vazia até que Bernardo olha para trás, por pedido do filho, Carlos. Após rir com a careta do filho, ele desvia novamente a atenção para a estrada. E é o tempo de ver uma luz forte à sua frente.

Bernardo então acorda assustado com aquele sonho, ainda se indagando se seria um sinal, ou apenas um pesadelo. Confuso, ele resolve manter o sonho em segredo.

Se ajeita na espreguiçadeira, e observa os gêmeos Carlos e Beatriz, de seis anos, correndo ao redor da piscina. E ao olhar pra esquerda, vê todo o esplendor de sua esposa. Anna Julia,com seus 27 anos, linda. Vestindo um maiô que só reforçava a sua beleza natural. Morena, cabelos encaracolados pretos, um corpo de dar inveja a muita mulher, ainda mais pelo fato de ela já ter sido mãe. Não era magra como uma modelo, mas tinha o corpo em forma. E todo aquele conjunto com os seus 1,65 metros só a tornavam mais exuberante. Bernardo, de 31 anos, ainda não acreditava na sorte que tinha ao conhecê-la tempos atrás no mesmo curso. Passou a acreditar menos ainda após o primeiro beijo. Já eram amigos, e no dia de uma prova, com segundas intenções, mas não esperando que elas ocorressem, pediu um beijo de boa sorte. Qual não foi a surpresa dele ao se aproximar para um beijo na boca e ter uma resposta positiva. Estava tão entorpecido de felicidade ao fazer a prova que acabou tirando mais até do que pretendia. E desde então, foram ficando cada vez mais juntos, mais juntos, até de fato namorarem, noivarem, casarem e, depois de sete anos de casado, ali estavam. Logo ele, que nunca fora atlético, e nem bonito como a esposa conseguira tão bela companhia para o resto da vida. Seus 1,78 garantiam que sua barriga não fosse tão avantajada, permitindo que fosse escondida sob a camisa. Cabelos lisos, de tamanho médio, branco e feliz, imensamente feliz com o rumo que sua vida tinha tomado.
Não eram o casal perfeito igual se lê nos livros de romance por aí. Brigavam de vez em quando, muito seriamente até, mas sempre se ajeitavam. Isentavam os filhos de seus problemas de relacionamento, para que eles não se preocupassem com assuntos dos pais.

Mas aquele fim de semana seria único. Especial. Sétimo aniversário de casamento e décimo terceiro ano juntos.
Passaram o dia de sábado aproveitando intensamente e cansando os gêmeos para que não acordassem à noite. Para quê? Para que eles enfim comemorassem. Assim sendo, às 20:30, puseram as crianças para dormir, e foram à forra.
Bernardo, que cozinhava muito bem, foi preparar um jantar para os dois, enquanto Anna arrumava uma surpresa pro marido. Tendo terminado o preparo do salmão ao molho de maracujá e alcaparras, ele levou a travessa, junto com a de arroz para a mesa de centro da sala que, para imensa surpresa dele, estava decorada com velas e falsos vinis, servindo de apoio para os pratos, e para as travessas.

Então, novamente, Anna o surpreende. Vestida com um espartilho vermelho, deixando grande parte do belíssimo corpo à mostra, ela se senta perto de Bernardo e sussurra pra ele: “Eu te amo.”

Simples como sempre fora, sincera como talvez nunca tenha sido. E talvez isso tenha espantado Bernardo. Eles se servem e jantam novamente, mas agora de uma maneira muito mais íntima e pessoal. Não falam nada, só se olham calmamente enquanto comem, talvez esperando algo, talvez sabendo que aquele não era o momento para falas, apenas para aproveitar. Ao terminarem de jantar, levantam, guardam as coisas e vão para o quarto. No corredor, olham novamente para o quarto das crianças, e, logo após verem que estavam totalmente apagados, finalmente se entregam.

Como dois amantes, como dois apaixonados, como almas iguais, como seres iguais, como se fossem um só. Se beijaram de forma única naqueles longos anos de relacionamento. Se amaram como nunca antes. A adrenalina era muito alta, assim como a intensidade da respiração. Creio que se alguém passasse pelo quarto naquele momento sentiria todo o amor que exalava daquele recinto. Se alguém presenciasse, com certeza, diria que eram um só. Testemunhariam uma forma pura de amor. Eles estavam numa tensão tão grande, numa voltagem tão absurdamente acima da média, que pareciam fazer amor pela primeira vez, como dois adolescentes  que conhecem o primeiro amor.

Quando terminaram, Bernardo, estupefato ainda, olha para a esposa e não encontra palavras para se expressar. De súbito, ela vira, monta nele, e lhe dá um tapa na cara. Ele estranha a atitude da mulher, que nunca fizera isso antes e pergunta:

– Qual o motivo disso?

– Acorda! – ela responde gritando.

– Mas eu estou acordado… – ele responde, ainda surpreso.

– Não está. Acorda, por favor… Tem gente precisando de você.

– Mas que papo é ess…

Foi então que ele sentiu um solavanco no peito e a visão ficou meio turva. Ele começou a sentir dores musculares e mais algumas pelo pelo corpo. Uma dor lancinante na perna e uma rápida visualizada do que seria o interior de uma ambulância. Bernardo então, muito assustado, vira pra Anna e pergunta o que era aquilo. Ela respira fundo, e começa a explicar:

“O que aconteceu foi o seguinte: estávamos já voltando pra casa desse fim de semana, quando um caminhão perdeu o controle e estava invadindo a nossa pista. Por um milagre, você conseguiu evitar a batida frontal, que mataria nós quatro instantaneamente. Porém, outra coisa ocorreu. O caminhão bateu na traseira do nosso carro. Começamos a rodar na pista, até que, a parte amassada do carro, infelizmente, furou o pneu. O pneu explodiu por conta da pressão e, consequentemente, fomos arremessados pra cima, mas qua…“

– Para, para, para… Você quer me dizer que nada disso está sendo real? Você quer mesmo que eu acredite que sofremos um acidente voltando pra casa? E tudo isso que ocorreu agora? E o que aconteceu mais cedo? Nada era verdade?

“Era tudo verdade sim. Tudo o que aconteceu hoje foi real. Só que num plano diferente do que vivemos. É aqui onde se tem todas as possíveis percepções. Lembra quando fizemos amor agora há pouco? Não foi a coisa mais perfeita? Quando eu te disse que te amava, não foi diferente? Tudo isso por um simples motivo: aqui, onde nós estamos, nesse “mundo paralelo“ nada é corrupto. A corrupção não chegou aqui, assim como a morte, doenças, pecados e o que mais de ruim assola o nosso mundo. É impossível mentir aqui, tamanha a pureza desse lugar. Você não percebeu a diferença? Tudo tem mais vida, mais cor, mais sensibilidade. Nada que não o puro, o verdadeiro, existe aqui“

– E por que eu, logo eu, vim parar aqui? Nunca fui o cara mais perfeito do mundo. Já menti, já fingi, fiz coisas que não deveria, só pra poder ter vantagem.

“Sim, mas tem uma coisa dentro de você que é pura. Que é imaculada. E seus filhos, nossos filhos, são a resposta. Você nutre por eles um amor puro, singelo, que não enfraquecerá nunca, independentemente de tudo. Você já se deu essa certeza. E por conta disso, você teve direito à saber desse espaço-tempo imaculado que estamos. Enquanto nós conversamos, lá fora, na realidade, no mundo corpóreo, tem uma equipe de paramédicos tentando salvar a sua vida. E eu estou tentando ajudá-los.”

– Ajudar uma equipe? Por quê? O que aconteceu no acidente? Acabei te cortando, desculpa.

– Pois bem, o carro caiu virado pra baixo. E nós estávamos todos de cinto, o que nos salvou mais um pouco. Mas, infelizmente, eu estou à beira do morte também. Por isso estamos aqui. As crianças estão numa situação melhor, por isso que elas conseguiram dormir com tranquilidade.

– Mas e o que irá acontecer conosco? – Bernardo perguntou assustado.

– É o que eu estou te dizendo. Eu estou à beira da morte. Nossos filhos não mais correm risco, estou te explicando. Se eles ainda estivessem com algum risco, não estariam dormindo. Quanto mais acordado aqui, mais você está próximo da morte. Você, por exemplo, já teve um espasmo, uma visão, certo? Estão conseguindo te reanimar. Já eu, sei que estou longe. Bem longe pra ser sincera. Mas fique tranquilo e não se preocupe comigo.

– COMO NÃO ME PREOCUPAR! – e ao gritar, novamente Bernardo teve uma visão da ambulância, agora um pouco mais nítida. – Você, Anna, é a mulher que eu amo! A mulher que eu escolhi para ser a mãe dos meus filhos. Não posso, simplesmente, aceitar uma coisa dessas. NÃO POSSO, E NÃO VOU!

– Olha só, é uma fatalidade!  Poderia ter acontecido com qualquer outra pessoa. Eu já aceitei isso. Entenda…

– Eu entendo, sim, mas não aceito. Não pode ser… Logo comigo! E o que vai ser de mim? Estamos há tanto tempo juntos… Você sabe que eu não me vejo com outra mulher que não você. Eu não aguento essa ideia de não ter você comigo!

– Bernardo, entenda uma coisa. Eu te amo! Isso nunca vai mudar, estando eu viva ou morta. Sei que vai ser muito doloroso pra você, mas foi uma tragédia que aconteceu. Não tente achar culpados.

– Eu sei e reconheço que falhei com você várias vezes ao longo desse tempo todo que nós estamos juntos. – Bernardo falou relutante. – Mas saiba que não foi por querer que eu te magoei. Foi…

– Compreendo – cortou Anna. – É por isso que você está aqui. É por isso que você vai conseguir sair dessa. Seu amor é puro, como o amor original. É por isso que, por mais que eu queira, não posso pedir que você venha comigo. Nossos filhos vão precisar de você. Eu já não mais estarei aqui, então, eu deixo essa tarefa nas suas mãos.

– Eu… não… consigo! – chorou Bernardo. – Ah, Anna… Por que logo você? Por quê? Eu aceito, infelizmente, porque não tenho outra saída. Vou criar Carlos e Beatriz dando a educação que eu sei que você daria. Te conheço o suficiente para isso. – e então, mais um clarão. Ele se viu na ambulância, na maca, com a maca da mulher ao lado. – Vamos juntos até o fim?

– Sempre se lembre uma coisa… – ela começou a falar, relutante, triste, mas com um tom de aceitação na voz. – “I’ll never let you part. For you’re always in my heart.” Pronto?

– Pronto.

Deram um último beijo. Ainda mais acalorado que o anterior. Ainda mais vívido. Ainda mais apaixonado. E voltaram à realidade…

Bernardo acordou com um susto, e percebeu que estavam tentando reanimá-lo. Olhou para o lado e viu o insucesso dos enfermeiros com Anna. Já aceitara, mas era difícil ver a mulher que amava naquela situação. Com um último sopro de vida, ela se virou, esticou o braço, olhou fundo nos olhos dele e sorriu. E então a máquina de monitoramento cardíaco parou. E a pulsação parou. Mas a mão não afrouxou.

Ele segurou a mão da mulher com toda a força que podia. Virou a cabeça para o teto da ambulância e uma lágrima escorreu. E se lembrou do juramento no casamento:

In our darkest hour
In my deepest despair
Will you still care?
Will you be there?
In my trials and my tribulations
Through our doubts and frustrations
In my violence
In my turbulence
Through my fear and my confessions
In my anguish and my pain
Through my joy and my sorrow
In the promise of another tomorrow
I’ll never let you part
For you’re always in my heart                                           (Will You Be There – Michael Jackson)

 

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