Fantasma-teu.

Era hoje de manhã, sendo essa manhã qualquer dia que você leia. O tempo não importa.

Pelo menos não pra nós.

No ônibus, indo pra faculdade, um senhor sentou do meu lado, balbuciando. Algo me dizia que eu deveria tirar o fone de ouvido, então o fiz. Ele parecia chateado, importunado por algo, por isso reclamava, pra si.

E então, por curiosidade, perguntei se algo o incomodava.

“Se algo me incomoda? Há um tempo atrás, provavelmente mais tempo que o seu aqui nessa terra, eu fiz uma escolha, tomei uma decisão, que até hoje não me orgulho. Precisava? Talvez. Acertei? Com certeza não. E é aí que mora o problema, porque esse fantasma me segue até hoje. Não o da decisão. O dela. ELA. Parece que não me deixa em paz, por algum motivo. Talvez por ter sido meu primeiro amor, e essa é a teoria que eu mais aceito. Talvez por ainda pensar em mim, e essa é a esperança que carrego comigo. O problema maior é não revê-la, para poder conversar sobre, ajoelhar e chorar na frente dela, não mais para o travesseiro ou tomando banho ouvindo uma música.

Essa última noite ela veio em sonho, ou será pesadelo?, de novo, mas eu parecia estar de fato lá. Podia e conseguia sentir o cheiro dela, as vezes que a toquei, ah, pude ter aquela sensação maravilhosa da pele dela tocando na minha, o choque novamente que senti quando peguei a mão dela há tanto tempo.

Eu estava em paz, caminhando num shopping, e encontrei uns amigos em comuns da época dela. Os cumprimentei, e então a vi, vindo, indo, parecia flutuar, com aquela leveza de sempre. Veio até mim, e doeu a maneira como me olhou. Desprezo. E então desespero. Fui falar com ela, mas não queria saber de mim. Ao tentar o abraço, ela pediu para tirar as mãos dela, e saiu. Foi-se. E então desespero.

Por vezes a perdia de vista, mas corri desenfreadamente até que chegamos a um ponto de ônibus. O ônibus que ela pegaria veio, e, embora fosse noite, não me importei e fui atrás. Sentei ao lado dela. E então desespero. Comecei a conversar. Argumentar. Pela primeira vez nos últimos anos ela me respondeu. Conversou. Argumentou. Pude entender tudo que ela sentia. Sentir tudo o que ela entendia. Transformar e ter para mim, como realidade, aquele sonho, que a essa hora já nem sabia mais distinguir.

O cheiro do shampoo dela, com o perfume de sempre, bem leve, me inebriava. O movimento dos cabelos dela, me hipnotizava. Não conseguia me concentrar e fazer o que mais precisava.

E então a abracei. Sem resistência. Olhei nos olhos dela e vi aquele mesmo olhar triste de muitas vezes, mas com uma sombra de felicidade lá. Eu sabia que não era o ideal, mas me aproximei uma vez mais para um beijo, dessa vez na boca. E conforme chegava perto, aquele momento em que a música aumenta, os tambores rufam, os movimentos cardíacos aceleram a ponto de quase parar, a respiração se mistura, as almas se tocam, acordei. Quando julguei estar finalmente pronto para exterminar aquele fantasma, ele me fez dor. Um urro descomunal foi o que soltei, acordando meu cachorro, que prontamente veio me ver. Não eram nem 3 da manhã e eu não mais queria dormir, para evitar correr riscos de passar por tudo de novo.

Mas acho que ela está devolvendo a dor que a proporcionei. Se for assim, meu arrependimento só aumenta. A saudade só aperta.”

Tendo dito isso, desceu do ônibus, me deixando atônito e com muito o que pensar. O que dizem sobre primeiro amor, ou amor verdadeiro, parece de fato ser verdade, achei que só eu sofria desse mal.

Ele, nessa manhã nebulosa por sobre a Baía de Guanabara, me deixou a pensar.

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2 comentários sobre “Fantasma-teu.

  1. Sim, eu voltei. 😉
    Parece que revisitar uns favoritos do navegados me faz mais do que bem. Seus textos sempre me emocionam. Na maioria das vezes com um sorriso. Obrigada!
    Ótimo texto, como sempre. Parabéns.

    1. Olhe, muito obrigado!
      Sinta-se sempre à vontade para voltar, que tentarei manter o alto nível, mantendo todo mundo, agora principalmente você, emocionados, felizes, ao menos disseminando um pouco do que sinto no dia-a-dia. Saiba que também visito teu blog regularmente, embora as últimas semanas tenham sido atribuladas.
      É gente como você que me faz querer continuar a escrever.
      Muito obrigado!

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