Se é.

De tocar a tua pele, me impregno de ti.
Cheiro, gosto, tudo e mais um pouco.
No caminho pra casa, pra nada, pra brasa, me perco.
Olho ao redor, à espreita, querendo te achar, te encontrar, não querendo aceitar que não é aqui que você está.
Médicos acusariam virose, maluquice, sandice.
Eu confesso logo o que sinto, porque doideira seria se não o fizesse.
E então a preocupação padece:
É amor.

De ônibus

Eu, vivendo, vi vindo. Parecia estranho algo voando àquela hora da noite. Seria um morcego? Olhos marejados por um bocejo me fazendo não saber discernir formas escondiam tanta coisa que nem sei.

Preocupação, medo, amor, terror.

Terror?

Terror!

Morcegos não são laranja. Não se aproximam numa velocidade desumana. Não invadem ombros de gente suburbana.

Muito menos estilhaçam vidraças de ônibus em mim.

Até se alimentam de sangue, mas não fazem vazar ou respingar tanto líquido rubro assim.

Algo de errado não estava certo, e tudo passava em câmera lenta enquanto eu socorria o transeunte atingido, combalido, caído.

E ao piscar, não é que era um desvario?

Obrigado.

Pensei numa imagem em que você pudesse se ver como eu te vejo. Numa imagem em que tu conseguisse saber como eu sei como você é. Numa tradução das tais mil palavras que dizem que a imagem tem.

Falhei tão miseravelmente que nem sei. Mas o pouco que sei, ou que pensei, virou algo que não chega a mil palavras. Nem sei se chega a ser metade disso. Tampouco sei se chega perto do que eu queria. Do que quero. Das certezas que vem e ficam. Das dúvidas que batem e vão. Se foram. Fora.

Alguns milhares de horas e minutos eu pensei em desistir. Largar. Amargar. Fugir. Impressionante como consegui insistir. Persistir. Deglutir. Sair. Do amargor, desilusão, dessas que a vida, ah a vida, nos dá. Nos tira.

Amar. Eu que tanto defendo o amor, que tanto o quis definir, que por ele tanto definhei, que hoje, graças a você, voltei a sentir.

Acreditar.

Amar.

Você.

A você.

A volta

Um dia desses me peguei memoriando. Não pensando. Não lembrando. Memoriando.

Percebi, de alguma maneira, que algo de errado não estava certo.
Me pregava peças a cada vez que tentava memoriar-me de algo.
Quebrava minha mente tentando alcançar resultados que dançavam na frente dos meus olhos.

Era um déjà vu pior que o outro, que se entremeavam e se intensificavam a cada vez que eu me forçava, me combalia, me instigava a ir adiante numa tentativa de entender o que se passava.

Sofri, suei, chorei, sorri.
entendi. minúsculo mesmo, pois era como me sentia naquele derradeiro momento.

Memórias são melhores do que o acontecido em si.

E a dança de sentimentos, em curtos movimentos, de intensos pensamentos, abrandou.
Em meus olhos, pesou. Minha consciência…
Consciência?
Com ciência?
Não tomei ciência de quando se foi.

E preso, em ilusões, me fui.

Página em branco

Tem um tempo que não me encontro.
Não por completo.
Não tão por perto.

Digo, não estou perdido.
Tampouco aflito,
Tanto que nem solto um grito.

Complicado é o porém que me consome,
a ideia que vem e some,
meu cérebro que tanto sofre,
por fome.

Motivos mil para não escrever,
dois mil para me reter,
outros tantos para não me render.

Procrastinar?
Trabalhar?
Amar?

Voltar!

Joguete-ma

Indireta, direta, que afeta e aperta, no peito, com jeito, um pleito de emoções abertas.

Emoção, razão, confusão, indecisão, cisão. Entre o ser e o sentir. Permanecer ou ir? Honestamente não sei o que vai sair daí. Ou daqui.

É tarde, alarde, covarde, se arde. Mas não em febre. Espera que não se quebre. Então não se desespere.

Nota mental, creme dental, leio jornal, alguém passa mal? Não só confusão, mas também informação. Em excesso, claro, assim como o café que já tomei, expresso.

Partir, sair, sentir, cair. Em tentação com tanta opção.

Acho que só me resta…

10do12

É muito fácil chegar e falar sobre alguém. As palavras simplesmente voam, surgem, se espalham, se fazem. Tomam a forma necessária para que a mensagem seja enviada. E o texto de hoje pretende justamente falar sobre alguém. Mas não é um ser indefinido como soa. É bem definido. Bem real. Bem presente.

E é sobre minha mãe.

Mãe essa que eu morreria por. Mãe essa que eu temia loucamente na época de colégio. Que me ensinou muita coisa com paciência. Que eu (tento) ensino muita coisa com (im)paciência. Que me deu broncas necessárias. Que tive brigas desnecessárias. Que me mostrou, e ainda mostra, que com pouco dá pra ser MUITO feliz. Que apesar dos pesares nunca irá me querer infeliz. Que tem capacidade de me fazer ficar aqui escrevendo por um dia inteiro e ainda assim me faltarão maneiras de descrever essa poesia e pessoa maravilhosa que ela é.

Que mesmo sem saber, todo dia me ensina algo. Que provavelmente chorou muito à noite enquanto criava dois filhos sozinha. Que me faz ser a pessoa mais corajosa do mundo desde os 14 anos.

Indiretamente me ensinou sobre dois sentimentos distintos e inexplicáveis: amor (mas diferente do Édipo, aquele maluco lá) e medo, a ponto de me fazer abandonar a faculdade em Niterói e ir voando pra Botafogo.

Rima, prosódia, metonímia, metáfora, zeugma e todas as figuras de linguagem se fazem tão escassas quanto a água no Saara.

Nenhuma palavra é suficiente para agradecer, prestar homenagem ou descrever tudo que sinto. Me basta só dizer algo que não mais seguro:

Te amo mãe.

E feliz aniversário, já que 540 anos não se completam todo dia. E nem sozinhos.

(Que faz me emocionar enquanto escrevo esse texto no ônibus)
P.S.: pode até parecer um texto de dia das mães, mas é de dia DA Mãe.

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No abrir da porta

É difícil entrar, olhar e não te ver ali. Não imaginar sobre o que poderia ter sido. O que quer que teria acontecido… Uma saudosa lembrança me marca e faz acreditar que dias melhores virão. Que mágica existe sim.

Casualidade se faz presente em momentos distintos, só para lembrar que há graça em viver. Há o viver em graça. Que nada é sem propósito, ou solto, sem motivo aparente. É terrível saber disso, mas pior seria não saber ou não viver assim.

Os sons da cidade se emudecem, vão e vem, independendo da minha vontade, da minha ação. Chega a ser preocupante o nível de distração que me encontro agora. Coisa que há muito não se via. Assim como você.

E é impressionante como depois de tanto tempo, ainda se fazem presentes algumas marcas. Algumas lascas, mesmo que escassas.

Sei que não devo me ater a isso, porém…

Terreiro

Ela caminha, vagando, solta, livre, num andar leve, despreocupado, tão leve que parece não tocar o solo.
Sabendo disso, ela vai, vem, cheia de si, de certezas, de purezas, lindeza. Lindeza que poderia facilmente ser seu nome, já que por onde passa, todas param, olham, se perdem e se encontram.
Suspiros dos homens, e azar deles também. Tão imponente que é, não se permite ser galanteada.
A rosa na mão, outra no cabelo, a taça de vinho que carrega sempre com si atraem e afastam na mesma velocidade e com a mesma proporção.
Tão bela ela, que de preto e vermelho, num vareio, um olhar que me rasgou ao meio, arrebatou meu coração.

Temporal

O Tempo perguntou pro Tempo quanto tempo o Tempo tem.

Mas o Tempo, malandro que só, não respondeu pro Tempo que o tempo que o Tempo tem é o tempo que o Tempo tem. Foi além. Relativizou, transformou em metáfora, anedota, contos e causos. Ficou tanto tempo falando que, acredite se quiser, passou muito tempo. Relativizou algo que antes tão simples, se complicou. Complicou? Não, ele dizia.

O Tempo disse pro Tempo que quem faz o próprio tempo é o indivíduo. E que esse tempo individual/individualizado era tão único e característico que não cabia ao Tempo, tão egoísta, tentar definir isso.

O tempo de uma troca de olhares, antes de uma pergunta derradeira, o nascimento de um filho, o primeiro gole de água após uma terrível ressaca, a noite tórrida de amor, aquele chamego, a carne na churrasqueira, ou ainda melhor: viajando, durante a viagem, na volta.

Cada tempo tem seu próprio tempo. Individualizado. Necessário. Nunca demais, nunca de menos. O tempo sempre é o que precisa ser. Felizmente ou infelizmente.

O Tempo ficou absorto por tanto tempo que a noção de tempo se perdeu.