Página em branco

Tem um tempo que não me encontro.
Não por completo.
Não tão por perto.

Digo, não estou perdido.
Tampouco aflito,
Tanto que nem solto um grito.

Complicado é o porém que me consome,
a ideia que vem e some,
meu cérebro que tanto sofre,
por fome.

Motivos mil para não escrever,
dois mil para me reter,
outros tantos para não me render.

Procrastinar?
Trabalhar?
Amar?

Voltar!

Joguete-ma

Indireta, direta, que afeta e aperta, no peito, com jeito, um pleito de emoções abertas.

Emoção, razão, confusão, indecisão, cisão. Entre o ser e o sentir. Permanecer ou ir? Honestamente não sei o que vai sair daí. Ou daqui.

É tarde, alarde, covarde, se arde. Mas não em febre. Espera que não se quebre. Então não se desespere.

Nota mental, creme dental, leio jornal, alguém passa mal? Não só confusão, mas também informação. Em excesso, claro, assim como o café que já tomei, expresso.

Partir, sair, sentir, cair. Em tentação com tanta opção.

Acho que só me resta…

10do12

É muito fácil chegar e falar sobre alguém. As palavras simplesmente voam, surgem, se espalham, se fazem. Tomam a forma necessária para que a mensagem seja enviada. E o texto de hoje pretende justamente falar sobre alguém. Mas não é um ser indefinido como soa. É bem definido. Bem real. Bem presente.

E é sobre minha mãe.

Mãe essa que eu morreria por. Mãe essa que eu temia loucamente na época de colégio. Que me ensinou muita coisa com paciência. Que eu (tento) ensino muita coisa com (im)paciência. Que me deu broncas necessárias. Que tive brigas desnecessárias. Que me mostrou, e ainda mostra, que com pouco dá pra ser MUITO feliz. Que apesar dos pesares nunca irá me querer infeliz. Que tem capacidade de me fazer ficar aqui escrevendo por um dia inteiro e ainda assim me faltarão maneiras de descrever essa poesia e pessoa maravilhosa que ela é.

Que mesmo sem saber, todo dia me ensina algo. Que provavelmente chorou muito à noite enquanto criava dois filhos sozinha. Que me faz ser a pessoa mais corajosa do mundo desde os 14 anos.

Indiretamente me ensinou sobre dois sentimentos distintos e inexplicáveis: amor (mas diferente do Édipo, aquele maluco lá) e medo, a ponto de me fazer abandonar a faculdade em Niterói e ir voando pra Botafogo.

Rima, prosódia, metonímia, metáfora, zeugma e todas as figuras de linguagem se fazem tão escassas quanto a água no Saara.

Nenhuma palavra é suficiente para agradecer, prestar homenagem ou descrever tudo que sinto. Me basta só dizer algo que não mais seguro:

Te amo mãe.

E feliz aniversário, já que 540 anos não se completam todo dia. E nem sozinhos.

(Que faz me emocionar enquanto escrevo esse texto no ônibus)
P.S.: pode até parecer um texto de dia das mães, mas é de dia DA Mãe.

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No abrir da porta

É difícil entrar, olhar e não te ver ali. Não imaginar sobre o que poderia ter sido. O que quer que teria acontecido… Uma saudosa lembrança me marca e faz acreditar que dias melhores virão. Que mágica existe sim.

Casualidade se faz presente em momentos distintos, só para lembrar que há graça em viver. Há o viver em graça. Que nada é sem propósito, ou solto, sem motivo aparente. É terrível saber disso, mas pior seria não saber ou não viver assim.

Os sons da cidade se emudecem, vão e vem, independendo da minha vontade, da minha ação. Chega a ser preocupante o nível de distração que me encontro agora. Coisa que há muito não se via. Assim como você.

E é impressionante como depois de tanto tempo, ainda se fazem presentes algumas marcas. Algumas lascas, mesmo que escassas.

Sei que não devo me ater a isso, porém…

Terreiro

Ela caminha, vagando, solta, livre, num andar leve, despreocupado, tão leve que parece não tocar o solo.
Sabendo disso, ela vai, vem, cheia de si, de certezas, de purezas, lindeza. Lindeza que poderia facilmente ser seu nome, já que por onde passa, todas param, olham, se perdem e se encontram.
Suspiros dos homens, e azar deles também. Tão imponente que é, não se permite ser galanteada.
A rosa na mão, outra no cabelo, a taça de vinho que carrega sempre com si atraem e afastam na mesma velocidade e com a mesma proporção.
Tão bela ela, que de preto e vermelho, num vareio, um olhar que me rasgou ao meio, arrebatou meu coração.

Temporal

O Tempo perguntou pro Tempo quanto tempo o Tempo tem.

Mas o Tempo, malandro que só, não respondeu pro Tempo que o tempo que o Tempo tem é o tempo que o Tempo tem. Foi além. Relativizou, transformou em metáfora, anedota, contos e causos. Ficou tanto tempo falando que, acredite se quiser, passou muito tempo. Relativizou algo que antes tão simples, se complicou. Complicou? Não, ele dizia.

O Tempo disse pro Tempo que quem faz o próprio tempo é o indivíduo. E que esse tempo individual/individualizado era tão único e característico que não cabia ao Tempo, tão egoísta, tentar definir isso.

O tempo de uma troca de olhares, antes de uma pergunta derradeira, o nascimento de um filho, o primeiro gole de água após uma terrível ressaca, a noite tórrida de amor, aquele chamego, a carne na churrasqueira, ou ainda melhor: viajando, durante a viagem, na volta.

Cada tempo tem seu próprio tempo. Individualizado. Necessário. Nunca demais, nunca de menos. O tempo sempre é o que precisa ser. Felizmente ou infelizmente.

O Tempo ficou absorto por tanto tempo que a noção de tempo se perdeu.

Devaneio-veio.

Uma vez mais subindo, indo e vindo a tal da serra que insiste em acinzentar o verde que tanto tenta se fazer presente. Ouvindo uma música tranquila e serena, pensando no que ainda há de acontecer na semana me deparo com uma extrema insegurança.

Nervoso que fico, procuro me atentar para não deixar o carro escapar às mãos agora trêmulas, incertas, inaptas a cumprir o papel primordial de segurar o volante, guiar o caminho até minha casa com segurança e, vez ou outra, realizar a mudança de marcha.

Tento me concentrar novamente no som que sai e ecoa por toda a estrutura metálica do carro mas está, e é, difícil. A incerteza do amanhã me consome. A falta de foco me faz, novamente, perder o controle. Pisco, buscando salvação. E a cada tentativa falha, minha alma se estraçalha, perdendo a batalha, como se ferida por uma navalha. É cruel, assim como a possibilidade de ir de encontro a um muro, uma ribanceira, um poste.

Por fim o devaneio que me assolava enquanto no ônibus a caminho do trabalho se vai. E de fato há um acidente na famosa rodovia que trespassa uma verde montanha e inunda de rugidos provenientes de motores o ambiente que deveria ser possuído e disputado por qualquer animal que faça tamanho barulho. Eu vi o futuro enquanto estava distraído? Eu vi a cabeça de quem estava, assim como eu, perdido?

Merda.

Tremido

Enfurnado no trânsito, torrando no sol, compondo uma música em mi-bemol, pensando no porquê não te visito. Entendo.

Te abomino, me recrimino, me desafino, ah que desatino. Reformulo.

Nada de desânimo, desespero. Busco, e quero, teu acalento, aconchego. 

Simples. 

Tudo pra, uma vez mais, me impregnar com teu cheiro, me inundar com teu beijo, repousar no teu seio, morrer e viver de desejo.

E isso é tudo, e só, o que anseio.

Em foco.

Algumas coisas acontecem durante a vida e não se tem explicação. Talvez por não se buscar uma, talvez por não se ter uma. O fato é que o mistério existe, e me arrisco a dizer que se faz necessário. Afinal de contas, que graça teria algo em que novas possibilidades não existissem? O quão ruim seria não poder se reinventar, se refazer, recomeçar.
Recompletar.
Há uma razão para pessoas se encontrarem, se conhecerem, conversarem, viverem. Nada é por acaso. Nunca foi, acho que nunca será. Arrisco minha sanidade e minhas belas palavras que sempre vão e vêm.

Tal qual me arrisquei por uma saída, um abraço, um beijo e, agora, pelo tempo que se fizer necessário. Não é mais um risco, mas sim um rabisco num papel arisco, em que as mais belas toadas se formam, se notam, se montam, para o desenrolar daquele tal verbo, sinônimo de prezar, estimar, apreciar.

A completitude de um abraço, que rechaça toda e qualquer necessidade do que há ao redor, coisa que tempos imemoriais não viam, se faz presente. E que não te quer mais ausente.

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Quem

Teu humor cinzento, sorriso cinzento, olhar cinzento, ser cinzento, tal qual cimento, do fresco ainda, solidificou.

Endureceu, enraiveceu, acizentou, acidentou.

Mas tudo teu que cinza era, numa sala de espera, com adequada atmosfera, nem que não quisera, tal qual primavera, no começo ainda, floreou.

Floresceu, cresceu, modificou, maturou.

E nesse balanceio, sem nenhum galanteio, um sorriso se abriu, o acaso agiu. Trouxe ventos de outrora, raios de aurora, que, correndo mundo afora, transformaram tudo, agora. Em muito boa hora.

Falando nisso, por ora, o cinza, esse peito, não mais adora. As cores, das mais belas, exalam uma nova era, abrindo, assim, uma janela.

Fez da chuva, viúva, como no ditado. E do sol, alegria, aliado.