Melhorando.

Estava sem sono, em mais um dia sem xarope. Esse maldito não só me deixava sonolento, como também me deixava letárgico.

Resolvi caminhar, maluco que sou. Ainda era cedo, alguma Cinderela ainda não havia perdido seu sapato de cristal, mas faltavam pouco mais de vinte minutos pra que mais um conto de fadas se escafedesse.

Aquela chuva fina, que mais refresca que molha, era agradavelmente suspeita, quase como se denunciando de estar tramando algo.

Meu casaco, que fazia as vezes de guarda-chuva, ficava com pequenas bolhas d’água, conforme iam se acumulando gotículas por toda a extensão do mesmo.

O tênis já estava sujo mesmo, então pouco me importava. E como era bom andar sem meias por aí! Estava descobrindo nas últimas semanas sobre essa nona maravilha do mundo moderno.

Sinal verde pros carros, vermelho pros pedestres, e eu, sem pressa, olhando para a esquina. Os desníveis do asfalto, o brilho e as pequenas poças provocadas pelo chove-não-molha do dia inteiro, e aquela famosa mancha de óleo que sempre aparece nas ruas de uma capital, por menor que seja, quando chove.

Perdido em pensamentos me acho quando vejo dois faróis acelerados entrando na curva. De tão acelerados, os mesmos pareceram entrar em câmera lenta. Não era um carro novo. E por isso talvez a dificuldade de estabilizar o mesmo na curva. A destreza, ou dificuldade, do motorista ao guiar uma direção mecânica, a beleza do contato das rodas com o molhado do terreno asfaltado, molhado e sujo, a cena quase angelical da luz do poste refletindo na lataria com marcas de desgaste só tornaram o momento mais instigante.

Maldita seja a hora que não tomei o xarope e peguei no sono.

Agora fico aqui agonizando, com a vida escorrendo por entre meus dedos, tal qual meu sangue pelo profundo corte na cabeça, a água do radiador do carro pela mangueira partida, a lágrima escorrendo pelo rosto desesperado do motorista.

E tudo isso só porque achei que estava melhorando…

Anúncios

Fraquejei

Hoje, na cor, o cinza se formou.

Por motivos difusos, profusos, confusos.

Motivos corretos e éticos. Perturbadores e justos?

O caos se formou, o corpo se fechou, pensamento? Se lacrou.
Cordas vocais? Travou. Acertou? Errou.

Nessa questão de caos e paz, preferi a bagunça, para trazer organização ao firmamento.

Já dizia o poeta:

Too much love will kill you.

Acho.

Acho que fomos rápido demais.
Que tomamos a direção errada.
A decisão errada.
Que era melhor termos esperado um pouco mais.

Afinal de conta, ainda estava crescendo, se desenvolvendo, tomando a forma esperada.
Tomando a proporção desejada.

Metemos os pés pelas mãos e então nos deparamos com um resultado totalmente adverso. Toda aquela expectativa foi abaixo. Toda a vontade se desfez. Todo um futuro foi comprometido.Tempos gloriosos seriam aqueles vindouros.

Ah, se arrependimento matasse.

Abrir o forno antes da hora comprometeu o bolo, aquele de cenoura com calda de chocolate, aquele mesmo, que seria café da manhã a semana toda.

Tristeza define aqueles 30 minutos esperando pra nada.

Pelo menos serviu pra festa junina do trabalho.

Se é.

De tocar a tua pele, me impregno de ti.
Cheiro, gosto, tudo e mais um pouco.
No caminho pra casa, pra nada, pra brasa, me perco.
Olho ao redor, à espreita, querendo te achar, te encontrar, não querendo aceitar que não é aqui que você está.
Médicos acusariam virose, maluquice, sandice.
Eu confesso logo o que sinto, porque doideira seria se não o fizesse.
E então a preocupação padece:
É amor.

De ônibus

Eu, vivendo, vi vindo. Parecia estranho algo voando àquela hora da noite. Seria um morcego? Olhos marejados por um bocejo me fazendo não saber discernir formas escondiam tanta coisa que nem sei.

Preocupação, medo, amor, terror.

Terror?

Terror!

Morcegos não são laranja. Não se aproximam numa velocidade desumana. Não invadem ombros de gente suburbana.

Muito menos estilhaçam vidraças de ônibus em mim.

Até se alimentam de sangue, mas não fazem vazar ou respingar tanto líquido rubro assim.

Algo de errado não estava certo, e tudo passava em câmera lenta enquanto eu socorria o transeunte atingido, combalido, caído.

E ao piscar, não é que era um desvario?

Obrigado.

Pensei numa imagem em que você pudesse se ver como eu te vejo. Numa imagem em que tu conseguisse saber como eu sei como você é. Numa tradução das tais mil palavras que dizem que a imagem tem.

Falhei tão miseravelmente que nem sei. Mas o pouco que sei, ou que pensei, virou algo que não chega a mil palavras. Nem sei se chega a ser metade disso. Tampouco sei se chega perto do que eu queria. Do que quero. Das certezas que vem e ficam. Das dúvidas que batem e vão. Se foram. Fora.

Alguns milhares de horas e minutos eu pensei em desistir. Largar. Amargar. Fugir. Impressionante como consegui insistir. Persistir. Deglutir. Sair. Do amargor, desilusão, dessas que a vida, ah a vida, nos dá. Nos tira.

Amar. Eu que tanto defendo o amor, que tanto o quis definir, que por ele tanto definhei, que hoje, graças a você, voltei a sentir.

Acreditar.

Amar.

Você.

A você.

A volta

Um dia desses me peguei memoriando. Não pensando. Não lembrando. Memoriando.

Percebi, de alguma maneira, que algo de errado não estava certo.
Me pregava peças a cada vez que tentava memoriar-me de algo.
Quebrava minha mente tentando alcançar resultados que dançavam na frente dos meus olhos.

Era um déjà vu pior que o outro, que se entremeavam e se intensificavam a cada vez que eu me forçava, me combalia, me instigava a ir adiante numa tentativa de entender o que se passava.

Sofri, suei, chorei, sorri.
entendi. minúsculo mesmo, pois era como me sentia naquele derradeiro momento.

Memórias são melhores do que o acontecido em si.

E a dança de sentimentos, em curtos movimentos, de intensos pensamentos, abrandou.
Em meus olhos, pesou. Minha consciência…
Consciência?
Com ciência?
Não tomei ciência de quando se foi.

E preso, em ilusões, me fui.

Página em branco

Tem um tempo que não me encontro.
Não por completo.
Não tão por perto.

Digo, não estou perdido.
Tampouco aflito,
Tanto que nem solto um grito.

Complicado é o porém que me consome,
a ideia que vem e some,
meu cérebro que tanto sofre,
por fome.

Motivos mil para não escrever,
dois mil para me reter,
outros tantos para não me render.

Procrastinar?
Trabalhar?
Amar?

Voltar!

Joguete-ma

Indireta, direta, que afeta e aperta, no peito, com jeito, um pleito de emoções abertas.

Emoção, razão, confusão, indecisão, cisão. Entre o ser e o sentir. Permanecer ou ir? Honestamente não sei o que vai sair daí. Ou daqui.

É tarde, alarde, covarde, se arde. Mas não em febre. Espera que não se quebre. Então não se desespere.

Nota mental, creme dental, leio jornal, alguém passa mal? Não só confusão, mas também informação. Em excesso, claro, assim como o café que já tomei, expresso.

Partir, sair, sentir, cair. Em tentação com tanta opção.

Acho que só me resta…